Por: Rodrigo Metedieri Miguel *
Com a proliferação da inteligência artificial generativa, capaz de produzir textos, análises e códigos em segundos, uma dúvida central ecoa no mercado de trabalho: qual é o papel do ser humano? A resposta, segundo especialistas, não está na geração de informações, mas na capacidade de atribuir valor, contexto e propósito a elas.
Enquanto a máquina reorganiza dados pré-existentes — sem vivência, valores ou senso crítico próprios —, o ser humano com sólido repertório intelectual consegue formular perguntas mais profundas, confrontar dados, identificar vieses e detectar as chamadas “alucinações” (informações falsas apresentadas com ar de verdade) geradas pelos algoritmos.
O reflexo na sociedade: o abismo educacional
O impacto dessa tecnologia não ocorre no vácuo. Dados internacionais mostram que países com altos índices de alfabetização funcional (como as nações escandinavas) absorveram redes sociais e novas tecnologias potencializando capacidades já consolidadas, como a confiança institucional e a cultura de leitura.
No Brasil, contudo, o cenário acende um alerta. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) revelam que apenas 12% da população adulta atinge o nível pleno de leitura, capaz de interpretar textos complexos e avaliar fontes com autonomia. Sem essa base, ferramentas como a IA correm o risco de amplificar fragilidades, dificultando a distinção entre fatos, opiniões e conteúdos manipulados.

Pensamento analítico em alta
Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial elegeu o pensamento analítico como a competência profissional mais importante desta década. Essa habilidade não surge do uso de softwares, mas da leitura, da curiosidade intelectual e da capacidade de argumentar e conectar diferentes áreas do saber.
Conclusão
Paradoxalmente, quanto mais avançada a inteligência artificial se torna, mais valioso se torna o que nenhuma máquina possui: reflexão filosófica, visão crítica e discernimento. A IA democratiza o acesso às respostas, mas não à compreensão. Ela acelera a produção de conteúdo, mas valoriza quem realmente sabe pensar.
“A habilidade mais importante da próxima década não é aprender a usar a inteligência artificial, mas desenvolver aquilo que permite utilizá-la de forma verdadeiramente inteligente: a capacidade humana de pensar.”
* Rodrigo Metedieri Miguel é cofundador e executivo de operações de saúde da Vitta
